Presença, consciência corporal e arte: o Shibari e a narrativa através das cordas na contemporaneidade

 

As cordas e nós tiveram um significado muito importante dentro da cultura oriental  e foram utilizadas em diversos contextos que perpassam por construções, comércios, até rituais de espiritualidade, tecendo uma história cheia de divergências e inquietudes. A evidência mais antiga de um fragmento de corda foi encontrada em um sítio neandertal datado de 50.000 anos atrás.

Em meados de 1600, durante períodos de muita violência e terror, foi desenvolvida uma arte marcial no Japão feudal e que utilizava das cordas como principal ferramenta pela classe dos samurais para capturar, restringir e torturar prisioneiros de guerra, chamada Hojōjutsu. Nesta arte marcial existia uma diversa estrutura de desenhos elaborada a partir de estudos sobre a anatomia humana, com o uso de materiais vegetais. Eram estruturas complexas capazes de revelar as intenções com as cordas sem que fosse preciso se comunicar através das palavras. Curiosamente, até hoje a polícia japonesa carrega algemas e cordas para conter prisioneiros.

Ao longo do tempo, com os avanços sociais e com a chegada da pornografia impressa através de gravuras pornográficas em meados do século XV na Europa, foi possível perceber a reprodução dessas ações em contextos eróticos, onde a figura do homem detinha o poder através das cordas em uma postura de dominação e a figura das mulheres em um lugar de submissão e rendição. Isso refletia muito bem o desejo de uma sociedade que foi estruturada com base no machismo e nas práticas de desumanização das mulheres e na construção da feminilidade. Ainda refletindo esta história, o shibari surge (também) em um movimento de práticas de dominação e submissão entre pessoas e girou por algum tempo em torno do envaidecimento e das práticas que estimulam e inflam o ego masculinista e de homens cisgêneros e heterossexuais. Eu busco desconstruir essa imagem estereotipada sobre o Shibari e por meio do meu trabalho, acredito que essa prática pode ajudar a desconstruir e reconstruir papéis de gêneros, sexualidades, discutir questões artísticas e especialmente ressignificando a estrutura (dominação-submissão) pela qual esta prática se origina. 

Deste modo, nos últimos anos pesquisei, pratiquei e compreendi a técnica do shibari ao compartilhar vivências com diferentes grupos de pessoas e comunidades, onde tive a oportunidade de me debruçar sobre a história de cada pessoa. Busquei compreender como cada sujeito estabelece sua relação com as cordas no momento do tato, do manuseio, da observação em ser, sentir e ver outros, outras e outres sendo amarrados. Quando questionados (o público), a maioria expressava uma sensação intensa de liberdade e força, além de uma conexão e clareza com a consciência corporal no momento presente, uma intensa conexão interior e algumas descrições de palavras como força e sinônimos de vivacidade. 

Aqui, procuro demonstrar como o shibari é sobre arte, presença e consciência corporal, o que é facilmente explicado através da ciência, que apresenta estudos sobre a liberação de vários hormônios do prazer com o estímulo de determinados pontos do corpo a partir desta prática.  

Por fim, além dos efeitos físicos, meu trabalho tem como objetivo o estímulo visual, sensorial e o apelo estético através das cordas, confrontando diretamente tanto o espectador do shibari, o admirador, o aluno-aprendiz e o rigger (quem amarra) a encararem uma nova narrativa corporal-estético-política, onde as linhas das cordas se conectam as construções históricas orientais e ocidentais e reverberam em força e nova potência de vida. 

 

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Presence, body awareness and art: the narrative of Shibari through the ropes in contemporary times

 

Ropes and knots had a very important meaning within oriental culture. They were used in different contexts that permeate buildings, commerce, even spirituality rituals, building a history full of divergences and concerns. The oldest evidence of a rope fragment was found at a Neanderthal site dated to 50,000 years ago. In the mid-1600s, during periods of great violence and terror, a martial art was developed in feudal Japan and which used ropes as the main tool by the samurai class to capture, restrain and torture prisoners of war, named Hojōjutsu. In this martial art there was a diverse structure of drawings elaborated from studies on human anatomy, with the use of plant materials. They were complex structures capable of revealing the intentions with the strings without having to communicate through words. Interestingly, to this day Japanese police carry handcuffs and ropes to restrain prisoners.

Over time, with social advances and the arrival of printed pornography through pornographic engravings in the mid-fifteenth century in Europe, it was possible to perceive the reproduction of these actions in erotic contexts. The figure of man held power through the ropes in a posture of domination and the figure of women in a place of submission and surrender. This reflected the desire of a society that was structured on the basis of sexism and the practices of dehumanizing women and the construction of femininity. Still reflecting this history, shibari appears (also) in a movement of practices of domination and submission between people and revolved for some time around the conceit and practices that stimulate and inflate the masculinist ego of cisgender and heterosexual men.  

I seek to deconstruct this stereotyped image about submission-domination of shibari through my work. I do believe that this practice with ropes can help to deconstruct and reconstruct gender roles, sexualities, discuss artistic issues and especially re-signifying the structure through which this practice takes place and is originated. In recent years I have researched, practiced and understood the shibari technique by sharing experiences with different groups of people and communities. With my work with shibari I had the opportunity to look into each person's story and sought to understand how each subject establishes their relationship with the ropes at the moment of touch, handling, observation in being, feeling and seeing others being tied. When questioned (the audience), most expressed an intense sense of freedom and strength, as well as a connection and clarity with body awareness in the present moment, an intense inner connection, and some descriptions of words like strength and synonyms for aliveness.

Finally, I try to demonstrate that Shibari is about art, presence and body awareness, which is easily explained through science that presents studies on the release of various pleasure hormones with the stimulation of certain points of the body from this practice. In addition to the physical effects, my work aims to stimulate visual, sensorial and aesthetic appeal through the ropes, directly confronting both the Shibari spectator, the admirer, the student-learner and the rigger (who ties) to face a new corporal-aesthetic-political narrative, where the lines of the strings connect the eastern and western historical constructions and reverberate in strength and new potency of life.